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Era uma vez na América
Era uma vez na América - SAPO Blogs

  • Portugal na América

    Se isto não é para ser anunciado...

     

    No Museu da Baleação, em New Bedford (Massachusetts), há uma lista dos marinheiros do baleeiro Acushnet, que partiu para os Mares do Sul, em 1841. Entre os nomes, os dos portugueses George Galvan e Joseph Luis, do Faial, e John Adams, de Cabo Verde, e o do americano Herman Melville. Nessa viagem, Melville aprendeu para escrever Moby Dick. Dos seus companheiros portugueses fica a grafia manhosa dos nomes, o que era comum: os dois primeiros assentos de baptismo católico em New Bedford são de John e Lucia, filhos de "Ennis Leeshandry", dislexia do sacristão perante um Inácio Alexandre. Apesar desses desencontros, New Bedford, que foi a capital mundial da baleia, foi também a mátria da emigração lusa na América. Os baleeiros com tripulação mínima fundeavam ao largo do Faial, da Madeira ou de São Vicente, os rapazolas metiam-se nos botes, subiam a amurada e entregavam-se a percorrer os mares na caça da baleia. O seu porto passava a ser New Bedford, dali escreviam cartas de chamada e a emigração para a América começou - por ironia, à custa de uma indústria fundada por português de outras origens, o judeu sefardita Aaron Lopez. Esse Museu da Baleação dedicado à primeira grande indústria americana só mostrava difusa memória portuguesa, como a lista do Acushnet. A partir da próxima sexta-feira vai ter, de forma permanente, uma galeria dedicada aos baleeiros portugueses.

     

    Crónica de Ferreira Fernandes, no DN



  • A importância da mobilização

    Hoje foram publicadas duas sondagens elucidativas do momento que se vive nos Estados Unidos. Numa sondagem do Wall Street Journal/NBC News, os republicanos têm uma vantagem de 49% contra 40% das intenções de voto, enquanto num estudo do Washington Post/ABC News a vantagem é ainda maior, com 53% contra 40%. Nestes estudos também foram contabilizadas as intenções de voto dos eleitores em geral, sendo que os números são bem mais próximos. Isto indica claramente que o eleitorado republicano está bem mais mobilizado e motivado para ir às urnas a 3 de Novembro, mas também representa um sinal de esperança para os democratas.

     

    Nas eleições intercalares a mobilização é fundamental, pois a abstenção é bastante mais elevada do que em anos de presidenciais. Uma base motivada significa uma enorme vantagem eleitoral. Se as eleições fossem hoje, os republicanos iriam em massa às urnas, enquanto muitos democratas ficariam em casa. Se avaliarmos as várias sondagens que têm sido publicadas, parece certo que os independentes que fugiram para os republicanos já não vão regressar neste ciclo eleitoral. Por isso, a esperança dos democratas para impedir um terramoto eleitoral estará, principalmente, em levar os eleitores democratas a votar. Neste momento não consigo visualizar outra hipótese para não sofrerem uma derrota de proporções históricas.



  • Gasolina no problema

    Qual a razão de Barack Obama ter-se transformado numa figura tão controversa na sociedade americana? Não haverá uma só razão e nem os especialistas chegam a um consenso. Mas há algumas ideias que são partilhadas por grande parte dos opinion makers americanos: a actual situação económica, agravada pelas impopulares reformas da saúde e pelo plano de estímulos. Não por acaso, Obama hoje é mais impopular em tradicionais swing states do que George W. Bush, como no Ohio, e no seu próprio estado, o Illinois, a sua popularidade ronda os 50 por cento.

     

    A equipa económica de Obama, que não deve sobreviver caso uma hecatombe atinja os Democratas em Novembro, tirou mais um coelho da cartola: um novo plano federal de apoio à construção de infra-estruturas terrestres, no valor de 50 mil milhões de dólares. Não pretendo discutir os méritos da decisão ou sequer se irá melhorar a economia periclitante do país. Mas esta medida tem poucas hipóteses de passar no Congresso até Novembro. Uma das principais críticas que os americanos fazem a Obama é precisamente ter aumentado despesa federal de forma brutal. E os próprios Democratas já perceberam isso, sendo que poucos estão a fazer campanha baseados no seu voto favorável ao Plano de Estímulos. Este novo plano de investimento federal poderá causar ainda mais dificuldades aos Democratas, fornecendo mais argumentos para a agenda republicana contra o défice e a despesa federal.

     

    Mas o que terão pensado os Democratas? Vamos anunciar isto, para depois ser impedido no Congresso pelos Republicanos, e depois voltamos a acusá-los de serem o partido do não e de obstruir a recuperação económica. O problema é que veremos muitos Democratas a juntar-se aos Republicanos para condenar este projecto da Casa Branca. A única via possível para Barack Obama neste assunto é mostrar à base descrente do partido que a Casa Branca está a fazer alguma coisa para combater a crise, levando-os às urnas em Novembro. Mas não me parece que vá funcionar para conquistar os indecisos. Em termos políticos, parece-me uma decisão errada, pois além de dificilmente obter resultados práticos (neste ciclo eleitoral de certeza), ajuda os opositores e complica a vida  aos Democratas em dificuldades nas eleições. Se era esta a medida com que contavam para dar a volta a dinâmica da campanha, parece-me que os estrategas da Administração vão falhar o alvo.

     

    Também no Cachimbo de Magritte



  • Debate na América (7)

    Excelente debate no Face the Nation de ontem sobre as eleições intercalares. Com os jornalistas Jim VandeHei do Politico e Nancy Cordes da CBS.



  • Obama vai a votos em Novembro?

    Tecnicamente, as eleições intercalares servem para eleger uma nova Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado. Neste sentido, recomenda-se prudência nas leituras "nacionais" dos resultados, uma vez que as razões para um determinado voto poderão, em muitas situações, estar relacionadas com questões locais, com a qualidade dos candidatos envolvidos ou meramente com alianças partidárias circunstanciais. Em todo o caso, um tal acto eleitoral constitui também, obviamente, um importante teste à popularidade do Presidente e das suas políticas.

     

    Como orientarmos uma leitura dos resultados entre estas duas premissas antagónicas? A resposta a esta pergunta dependerá, a meu ver, da dimensão desses resultados. Num ano eleitoral muito difícil para os Democratas, por questões circunstanciais e estruturais (falei destas últimas aqui e aqui), seria sempre de prever um voto punitivo para os "azuis", com este ou outro Democrata na Casa Branca. Se, porém, a derrota Democrata for particularmente expressiva (implicando que os Republicanos conquistem a Câmara dos Representantes e ganhem 7-8 lugares no Senado), é impossível dissociar tal terramoto da Presidência. Especialmente em duas situações: se tal calamidade ocorrer em lugares como a Califórnia, Washington ou o Illinois (o que mostraria um divórcio entre a base Democrata e o Presidente); e se ela decorrer de uma campanha manifestamente centrada numa mensagem reprovadora das políticas de Obama (por oposição a campanhas essencialmente relacionadas com assuntos "locais" ou "estaduais").

     



  • Sintomas...

    Sabemos que o Partido Democrata está mesmo em perigo quando um dos seus senadores mais "liberais", e de um estado que ofereceu a Barack Obama 56 por cento dos votos em 2008, "foge" do Presidente. Obama esteve esta semana em Milwaukee, Wisconsin, mas o senador Russ Feingold não "arranjou" tempo para aparecer ao lado do Presidente. Isto é um sintoma que as capacidades de Obama neste ciclo eleitoral estão diminuídas. Provavelmente o Presidente vai resumir-se a angariar dinheiro para os candidatos, e a ter uma ou outra aparição com candidatos em distritos mais confortáveis para os Democratas.



  • The polarizing president

    One of the puzzling questions about Barack Obama's presidency is how the post-partisan candidate of 2008 became the polarizing chief executive of 2010. The answer may be surprising. He was far more polarizing from the start than many recognized. His choices in office and his opponents' responses have only hardened that divide.


    During the campaign, Candidate Obama talked about the need to put the partisan divisions of the past behind. His victory fostered discussion about whether the country had turned a corner after years of bitter partisanship. In the glow of his inauguration, some people heralded a new era in American politics.

     

    Dan Balz, Washington Post



  • Casa de Apostas (IV)

    Estamos a dois meses das eleições e as notícias continuam a ser péssimas para o Partido Democrata. Larry Sabato, estudioso do fenómeno eleitoral americano da Universidade da Vírginia, prevê que os republicanos vão assumir o controlo da Câmara dos Representantes, com ganhos superiores a 47 lugares (precisam de conquistar 39 para a maioria). No Senado, Sabato considera que o mais provável é que os republicanos conquistem entre 7 e 9 lugares, ficando portanto afastados da maioria.

     

    O mês de Agosto foi positivo para os republicanos, pois alguma coisa mudou desde que publiquei este mapa há um mês. Marco Rubio (Florida) e Dino Rossi (Washington) provavelmente ganhariam as eleições se fossem hoje. Ao contrário do que sucedia em Julho, as últimas sondagens têm sido favoráveis aos republicanos, pelo que o favoritivismo neste momento recai sobre eles. No New Hampshire e Lousiana, os republicanos ganharam vantagem no último mês, estando neste momento mais confortáveis na liderança. Por fim a West Wirginia, que vai a votos numa eleição especial para subsituir o falecido Robert Byrd, poderá ser mais renhido do que se pensava, depois do popular governador democrata Joe Manchin ter avançado. Num estado fortemente republicano, a impopularidade de Obama poderá colocar em causa a sua eleição. Em sentido inverso, no Alaska (depois da derrota da senadora Lisa Murkowski perante o candidato do tea party) e na Carolina do Norte, surgiram sondagens que indicam que os democratas terão algumas hipóteses de ganhar estas eleições.

     

    Segundo este mapa, os republicanos, se as eleições fossem hoje, poderiam "roubar" oito lugares aos democratas, ficando com 49 lugares contra 51 dos democratas. Como afirmou Larry Sabato no seu artigo, seria interessante saber o que fariam Joe Libberman (independente do Connecticut) e Ben Nelson (democrata do Nebraska) numa situação destas. Será que mudavam para o lado republicano?



  • Milhões em anúncios de televisão

    A Internet revolucionou as campanhas eleitorais. Esta é uma frase que é muito repetida pelo mundo fora, e eu até sou daqueles que concorda com isso. Mas na política americana há algo que não muda: o forte investimento em anúncios televisivos. E, ao contrário do que se chegou a prever, o volume de investimento tem vindo a aumentar. Até ao momento foi gasto neste ciclo eleitoral cerca de 840 milhões de dólares, mais 50 milhões do que em 2008. Numa entrevista da Advertising Age a Evan Tracey, presidente da TNS Media Intelligence/CMAG, ficamos a saber que, se este ano o rumo for o mesmo de outros anos, o valor final dispendido em televisão poderá ascender a 3 mil milhões de dólares, ultrapassando os 2,5 de 2008. Não deixa de ser surpreendente que as centenas de candidatos/partidos/organizações independentes/apoiantes continuem a direccionar a esmagadora maioria do dinheiro para a televisão. Estas agradecem.



  • The President addresses the nation II

    Barack Obama fez um discurso competente. Faltou-lhe a chama e o brilho dos tempos da campanha, mas este não era um tema fácil para ele. O Presidente foi um opositor da guerra do Iraque, e apesar de ter prosseguido a politica de George W. Bush, prometeu acabar com a guerra nos primeiros dois anos do seu mandato. E Obama cumpriu, também porque seguiu o plano Bush. Num discurso onde elogiou as forças militares americanas que ?cumpriram a missão que lhes foi destinada?, não deixou de recordar as diferentes opiniões sobre a decisão de invadir o Iraque em 2003. Ao referir que tinha telefonado a George W. Bush, e logo depois, ter dito que patriotas tinham concordado e discordado sobre a sua decisão, Obama quis dar um passo em frente e terminar com as divisões do passado. Nesse momento fez-me recordar o Obama da campanha, que falava para o povo americano acima dos interesses partidários. Foi, talvez, o melhor momento da noite.


    Mas houve alguns sinais para o futuro: em primeiro lugar, que as missões de combate no Iraque podem estar terminadas, mas o compromisso com o povo iraquiano não acabou. Isso quer dizer que os EUA poderão continuar no Iraque depois de 2011, caso o governo iraquiano o peça, conforme o acordo assinado entre os EUA e Iraque. A parte surpreendente do discurso, para mim, foi o elogio do excepcionalismo americano, consubstanciado  na defesa dos Estados Unidos como líderes do mundo livre e na defesa da ?spreading democracy?, conceitos até ao momento sempre estiveram ausentes em Obama. O Afeganistão não foi esquecido, e a comparação com o que foi feito no Iraque. Obama chegou mesmo a falar numa retirada baseada nas condições do terreno, apesar de reafirmar a sua intenção acabar com com essa guerra, pois a "paciência dos Estados Unidos não é ilimitada".


    Na parte final do discurso, abordou a economia americana, o assunto que mais preocupa os cidadãos. Obama foi inteligente, pois tentou transmitir a seguinte mensagem: a guerra do Iraque faz parte do passado, é tempo de olharmos para o futuro e centrarmos os nossos esforços na economia. E também não deixou, implicitamente, de relacionar a crise com as guerras de Bush.


    Obama discursou ao centro: por um lado terá desagradado à esquerda anti-guerra por não ter elaborado uma crítica à intervenção americana. Mas também recebeu criticas à direita, por não ter atribuído crédito a George W. Bush pela ?surge? de 2007. Como já referi, este não era um discurso fácil. Mas parece-me, até pelas reacções que já li, que cumpriu o seu objectivo: a guerra acabou, vamos em frente.




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