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Joel Neto.Com - SAPO Blogs

  • O mundo é um hospital (bullying sobre Foucault)

    Por esta altura, já aprendi tudo o que é preciso.  O menino dá erros ortográficos nos ditados da escola? É disléxico. O adolescente é malcriado como o raio, capaz de partir a cara à professora de Inglês e, provavelmente, à mãezinha também? É hiperactivo. O estudante universitário é um preguiçoso dos diabos, em borga atrás de borga, sem qualquer projecto de vida e com menos vontade ainda de discuti-lo? Padece de depressão. O adulto tem um mau feitio que não se pode? É bipolar, claro. O velho não pára quieto na cama, azedo como sei lá o quê, quase de certeza só para não deixar dormir a desgraçada que há quarenta anos lhe atura as manias (perdão: as idiossincrasias)? Tem aquela doença nova, como é que se chama ? ah, ?sindroma das pernas inquietas?.

    É o triunfo do eufemismo, o século em que vivemos. E não há melhor eufemismo do que representar o papel do coitadinho, assuma que forma assumir a coitadice. Um drogado não é um drogado: é um toxicodependente ? precisa de ajuda. Um ladrão não é um ladrão: é um cleptomaníaco ? precisa de ajuda. Um ateador de fogos não é um ateador de fogos: é um pirómano ? precisa de ajuda. E aí vamos nós, de médico em curandeiro, de psiquiatra em psicólogo, de médium em bruxo encartado ? tudo nas mãos da medicina, tudo cheiinho de esperança no doutor Bob Proctor, tudo na expectativa de que os espíritos se condoam de nós, tragam consigo os extraterrestres mais bem-intencionados da galáxia e possamos todos, enfim, ser resgatados na cauda do cometa.

    Tudo bem: são as parvoíces (perdão: as disposições) deste tempo. Mas a mim, que por esta altura já nem sequer tento escapar à fama de moralista, chateia-me que ninguém seja já responsável pelas suas acções. E chateia-me ainda mais que, na base dessa desresponsabilização (não, não: dessa irresponsabilidade), esteja quase sempre aquele que é, ao mesmo tempo, o mais humano e o mais irritante dos defeitos (perdão: das condições): a preguiça. Querem mesmo saber qual foi, de todas as sete vítimas de John Doe, o vilão de David Fincher, aquela  cujo martírio menos me custou? O tipo que estava há não sei quantos meses deitado na cama, sem comer e sem beber, transformado numa múmia na qual, apesar de tudo, restava um nadinha de vida.

    Perante a preguiça, todos os restantes pecados mortais parecem-me irrelevantes. E, se pensam que se trata apenas de moral protestante, dos velhos ditames calvinistas engolidos na infância e carregados aos ombros, de forma especialmente freudiana, ao longo da vida, pensem melhor. Eu também sou um preguiçoso. Somo-lo todos ? está-nos no sangue, na natureza, na embalagem social (está-nos em tudo). A diferença é esta: conscientes de que têm uma só vida, e mesmo que a espaços se convençam das mais mirabolantes vidas póstumas, alguns, de forma um tanto quimérica,  decidem fazer alguma coisa com ela; já outros, de modo especialmente cínico, preferem enterrar o talento e esperar o regresso do amo. E eu, sendo seguramente um moralista chato e cinzentão, estou muito longe de ser tão cínico quanto às vezes me esforço por parecer.

    Para mais, o preguiçoso é normalmente um fofinho ? e não há nada mais irritante, para alguém que há décadas se empenha em transcender a sua vil condição de preguiçoso, do que um fofinho por todas as razões erradas. É que o preguiçoso militante não se limita a viver o seu ócio à distância: chuta para cima de nós todas as responsabilidades que consegue, a seguir pede-nos dinheiro emprestado ? e depois ainda se põe com aquela carinha, que é disléxico, que é hiperactivo, que é bipolar, que está deprimido, que tem o sindroma das pernas inquietas e, por isso, ou são os espíritos ou somos nós, sozinho é que ele não vai lá de certeza. Eis, enfim, a minha suprema tragédia: não consigo tolerar a cigarra. E, depois de mais um mês de Agosto esquizofrenicamente agarrado à máquina e a ouvir falar de atestados e de baixas médicas e de desenfianços e de toda a parafernália de expedientes a que hoje se recorre para recuperar as férias precocemente gozadas, achei que não devia acabar o meu Verão sem um pequeno ajuste de contas.

    Escravos do sistema? Nós?!

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 4 de Setembro de 2010



  • O seu filho está deprimido (mais do que é costume)?

    Estou naquela fase da vida em que se começa a ter amigos com filhos à porta da faculdade ? e, inevitavelmente, vou-me solidarizando com as suas causas. Para alguns, o dinheiro até nem é problema; para outros, é um suplício. Não importa: de cada vez que vou jantar a casa de um deles, é inevitável que, em algum momento, o rebento pronuncie a palavra ?Erasmus?. Independentemente do orçamento familiar e da cidade para onde vai ter de mudar-se, do grau de esforço que terá de empreender para conseguir acabar a licenciatura e mesmo das notas com que se candidata (e das quais resultará um lugar numa universidade pública ou um esforço suplementar dos pais para pagar o curso ao menino) ? o facto é que o miúdo pode ainda não saber quase nada sobre o que o espera, mas de uma coisa já está certo: ?tem? de ?fazer? Erasmus. E eu, gelando por ele, gelo sobretudo pelos meus pobres amigos, que é sobre quem recairão os trabalhos quase todos.

    Não me entendam mal: eu também fui mau aluno, eu também gastei mais dinheiro aos meus pobres pais do que aquele que eles podiam despender ? e, aliás, tendo nascido na Terra Chã e filho de protestantes, numa espécie de bolha a que bem poderíamos chamar ?uma ilha dentro de outra ilha dentro de outra ilha ainda?, também tive, de alguma forma, o meu próprio Erasmus, que foi Lisboa. Mais: quando vi ?A Residência Espanhola?, aqui há uns anos, senti pena de não ter embarcado um dia para Barcelona, para Berlim, até para Cabul ? e, no momento em que me dei conta das moças que a certa altura passaram a encher Lisboa à noite, tanto nos sábados de Verão como nas terças e nas quartas-feiras de Inverno, mais ainda lamentei a minha condição de menino-de-coro-que-um-dia-percebeu-que-andava-a-atirar-borda-fora-o-suor-dos-progenitores-e-foi-antes-vergar-a-mola-que-de-resto-é-a-única-coisa-que-alguma-vez-soube-fazer. De maneira que esta não é apenas mais uma crónica moralista, embora me custe agora violar essa tradição tão laboriosamente cultivada estes anos todos. É experiência mesmo. É observação. E, aliás, é estatística.

    Três quartos dos miúdos que vejo regressar do famigerado Erasmus vêm deprimidos. A maior parte das vezes, trazem um sorriso nos lábios ? e nem eles, nem os que os rodeiam percebem de imediato que vêm deprimidos. Caramba, eles conheceram um pedacinho do mundo, falaram outra língua, tomaram contacto com uma cultura diferente, beberam copos sempre que lhes apeteceu, seduziram gordinhas nas casas de banho de discotecas underground e, entretanto, não tiveram de corresponder a quase nada do ponto de vista académico: têm tudo para estarem felizes com a experiência, com a aprendizagem, com as memórias ? deprimidos é que não hão-de estar, com certeza.

    Problema: ao fim de seis meses, o resto do curso já não os seduz assim tanto. Se o curso já estava completo, então é a monografia que nunca mais chega. E, se a monografia já fora entregue, então são as cartas com os currículos que tardam em conhecer o aconchego do marco do correio. Bem vistas as coisas, eles não sabem ainda exactamente aquilo a que querem dedicar-se. Pensavam que queriam ser engenheiros, médicos, advogados, economistas, mas entretanto a sua vocação talvez seja outra ? e, ainda por cima, o chamado mercado de trabalho, com os seus ordenados miseráveis, a sua precaridade e as suas promoções por tudo menos pelo mérito, parece-lhes agora uma autêntica palhaçada.

    Tenho uma teoria sobre isto: em vez de regressarem e darem de caras com um paízinho triste e sem chama, eles perceberam que os outros países são tão tristes e tão sem chama como o nosso ? e, de repente, olham em frente e concluem que o mundo é todo uma merda e que nem sequer emigrando se pode escapar a ela. Não sei: talvez seja outra coisa. Mas isso é o menos: o que importa é que estão deprimidos, que não fazem um esforço ? e que, mais dia menos dia, vão usar a expressão ?ano sabático?. E o meu grande conforto é que, não tendo filhos agora, na altura em que filho meu chegue à faculdade, já nem sequer haverá Europa, quanto mais Erasmus.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 28 de Agosto de 2010



  • Mas tudo errado mesmo

    É que eu dei e recebi conselhos ao longo de uma vida, chorão que sempre fui, tanto quanto vampiro das emoções dos outros (e até, talvez, um pouco voyeur) ? e isto sei-o bem: dezoito dezanove-avos dos conselhos que trocamos hoje em dia não só não servem para nada de bom como, inclusive, podem ter um alcance especialmente pernicioso na vida do aconselhado. Diz o povo que ?Se os conselhos fossem bons, não se davam: vendiam-se? ? e a verdade é que, enganando-se em tanta coisa, como não me canso de repetir, também nisto o povo acerta.

    Hoje em dia, e de cada vez que vejo duas almas aconselhando-se sobre uma mesa de café, a primeira coisa que procuro despistar é aquilo que venho a encontrar mais depressa: sinais de que, parecendo estar ambos a falar da vida do outro, dos seus problemas e das suas angústias, estão na verdade os dois a falar sobre si próprios. Podia haver aqui algo de sábio, entendendo a vida como um jogo de espelhos com os quais temos todos a aprender, mas infelizmente não é assim: tudo não passa de egocentrismo mesmo.

    De resto, ninguém faz perguntas, que é a única forma de colocar os outros a pensar ? e, se as faz, a última coisa que quer ouvir é as respostas. No fundo, até as maiores tragédias dos outros são apenas breves trechos da nossa vida pessoal. E com a maior das facilidades dizemos coisas assim: ?Parte para outra!?, ?Isso já não dá nada, pá!?, ?Separa-te, mas é!? E, efectivamente, muitos separam-se. E, as mais das vezes, passam cinco anos à toa na vida. E quase nunca o conselheiro está lá para mais conselhos, porque entretanto tem outras vidas para devorar até que, enfim, satisfaça a sua sede de lágrimas, de sangue e de voueyrismo.

    Ao Zé, de aqui vos falei na semana passada (vocês sabem, aquele que tem mais é de partir para outra, porque querer acordar todos os dias abraçado à mulher ?não chega?), sei bem o que está a acontecer: está a ser castigado. As mulheres têm prazos muito diferentes dos nossos. Para muitas, e como para Deus, um dia é como mil anos e mil anos como um dia ? e as mulheres decentes castigam-nos, às vezes até durante muito tempo, mas não deixam nunca de monitorizar os nossos movimentos, inclusive entendendo o nosso desvario em busca de ternura como parte da pena a cumprir. No fim, o objectivo é quase sempre a reabilitação.

    Com o que elas não contam, claro, é com uma ?amiga lá de casa? disposta a destruir o plano, na suposta boa-vontade de os libertar aos dois daquele chove-não-molha. ?Mas, afinal, o que é que sentes, Zé? Sentes assim uma loucura, um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, de rasgar-lhe as roupas, de possuí-la à bruta??, pergunta esta. E ele: ?Bom, eu só queria ficar ali a dormir abraçado a ela ??, balbucia ele. E ela: ?Então não chega, ó Zé. Mas não se está mesmo a ver??

    Parece uma coisa vinda das calendas da revolução sexual, do género: uma mulher tem direito a sexo todos os dias, à bruta quando lhe apetece e aos miminhos quando lhe dá jeito ? e, se não o tiver todo à horinha certa, e mais os telefonemas e as flores e os pequenos-almoços na cama e os jantares à luz de velas e tudo o mais que entretanto o senhor Nicholas Sparks escreveu num livro e a senhora Júlia Pinheiro disse numa entrevista, não lhe resta outra opção senão ir bater à porta do vizinho ? e o seu descartável amoroso tem mais é de pôr-se a andar depressa, à procura de uma dona de casa horrorosa qualquer que esteja disposta a tolerar a sua presença.

    Sobre essa instituição que são as amiguinhas lá de casa, com o seu invariável desejo de se tornarem proprietárias de todos os homens da equação, dos outros tanto quanto do seu próprio ? mesmo que sem pecado, sim, mesmo que sem pecado ?, ainda hei-de voltar a escrever. Para já, registo apenas que, perante um homem desesperado, logo surjam uma série de vampiros com uma espécie de amorómetro na mão, na ignorância absoluta da imensa multiplicidade de formas que o amor assume e no desejo incontido de colocar o mundo todo a viver segundo as parcas regras que a sua ignorância é capaz de conceber. Esta espécie é um absurdo.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 21 de Agosto de 2010



  • Está tudo errado connosco

    ?Mas o que é que sentes, afinal??, perguntara-lhe ela. ?Sentes assim um estremeção, uma loucura, um inesperado e arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, de rasgar-lhe as roupas e de possuí-la ali mesmo, à bruta, com a praceta toda em choque perante os gemidos que vocês emitem pela janela??

    Isto contou-mo ele depois. Estávamos numa esplanada de Lisboa, com o sol jorrando sobre as nossas nucas ? e a conversa, como sempre acontece com os homens atónitos, derivou para a intimidade. Zé está separado há quase um ano. Tem vindo a adiar uma conversa sobre o divórcio, mas sabe que não tarda vai ser preciso andar com a vida para a frente ? e é esse o abismo que vem encarando agora, na certeza de que nenhum debate dessa natureza se conclui sem que antes se abram portas e janelas que depois nunca mais se consegue fechar.

    Por sua vontade, há que dizê-lo, não tinha havido separação nenhuma. Ainda uns dias antes, ao ir devolver a filha à mulher depois de mais um daqueles fins-de-semana de McDonald?s e Dance Dance Revolution que agora constituíam o momento alto da sua quinzena, ele estendera a miúda à mãe, vira-a fechar a porta atrás de ambas e morrera de novo por dentro. Mas também por isso começava a tornar-se urgente ter ?a conversa?, sob pena de dores ainda mais prolongadas. E o que lhe faltava, embora não fosse pouco, era perceber de onde vinha aquele desabamento em que agora redundavam os seus domingos à noite, uma vez a cada quinze dias.

    Porque ele tem saudades, sim. Porque, por ele, as coisas teriam continuado iguais a sempre. Porque, se há anos vinha trabalhando de mais, era por não ter alternativa ? e porque, mesmo trabalhando de mais, mesmo negligenciando um tanto a relação a dois, mesmo dedicando à miúda todo o pouco tempo livre que tinha, aquele beijo que trocava à noite com a mulher, até escassos onze meses antes, ainda era o selo diário de uma vida pouco menos do que perfeita.

    Mas, de facto, nunca se colocara a questão aparentemente essencial: de que sentia agora saudades ? da mulher ou apenas da família? Pois para isso mesmo viria a elucidá-lo uma amiga lá de casa, em longo telefonema, determinada a ajudá-lo a pensar na vida. Afinal, Zé, o que é que tu sentes? Isso não será só por causa da cachopa? Não estarás a confundir amor com carências? Não estarás a ser apenas mais um sacana que só quer a sua familiazinha toda no lugar certo, para depois poder andar dezasseis horas por dia a brincar aos consultores, sem atenção às necessidades da mulher?

    ?Sentes assim um estremeção, uma loucura, um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede??, resumira ela, em jeito de teste do algodão. ?Bom, pondo as coisas assim, acho que não. Eu só queria ficar ali com ela, dormir abraçado a ela, acordar ao lado dela??, balbuciara ele. E ela: ?Não chega.?

    Portanto, ?Não chega? ? eis como as pessoas se aconselham mutuamente, hoje em dia. ?Não chega? um homem desabar perante a impossibilidade de voltar a dormir abraçado à mulher com quem viveu quinze anos: é preciso que, ao vê-la, seja possuído ainda por um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, rasgar-lhe as roupas e possuí-la à bruta. ?Não chega? um homem andar há um ano a bater com a cabeça nas paredes, sem Norte nem Sul: é preciso que deseje ainda a sua mulher como a desejou no primeiro dia.

    ?Não chega? um homem ter saudades da sua família, daquilo que construiu em conjunto com a mulher: é preciso que esqueça as crianças, a casa, as rotinas e os objectos, concentrando-se apenas nos cheiros originais ? e, se em algum momento a mulher vacilar perante a sua atarantação, quase disponível para perdoar-lhe o trabalho em excesso e a dar-lhe nova oportunidade de ser um homem a sério, mesmo que no Verão seguinte tenha de ficar tudo a passar férias em casa por causa da dívida do cartão de crédito, rapidamente surgirão duas ou três compinchas prontas a lembrá-la de que era o que faltava, ou há sexo animal, rosas sobre a almofada todos os dias à noite e poemas de Wordsworth lidos em voz alta pela madrugada fora, ou nada feito. Pena tenho eu de que esta coluna seja de quatro mil caracteres apenas. Não chega.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 14 de Agosto de 2010



  • Uma noite no Algarve

    ?Mas tu estás preta!?, grita uma das raparigas entretanto já sentadas à mesa. São onze da noite da última sexta-feira de Julho ? e eu estou na pior condição em que se pode estar às onze da noite da última sexta-feira de Julho: jantando sozinho num restaurante mediano do Algarve dos sonhos da classe média.

    Um pouco mais abaixo, piscavam os néons do casino, com as suas sempre reiteradas promessas de mulheres bonitas, vida à grande e escrupuloso respeito pela velha máxima de que, no fim, a Casa ganha sempre. Dos lados da marina vinha um som abafado de gente em delírio, feliz por ter conseguido atravessar a ponte, resistir durante 250 quilómetros aos avisos da Prevenção Rodoviária e sobreviver, enfim, a mais um ano de tanta chatice, tanta mentira e tanto imposto.

    Pequeno e silencioso, aquele parecera-me o sítio ideal para jantar depressa e recolher. Ao fundo, o Benfica marcava golos, mas tão baixinho que quase era possível eu ficar simplesmente a ler, esperando o entrecôte, sem ressentimento por o Benfica estar a marcar golos.

    Até que, de repente, um rebuliço. Rapazes em algazarra, pedindo ?uma mesa para muitos, quinze ou vinte, já se vê?. Mercedes e Audis e ?BêÉmes? apitando por todos os lados, com gente que vai chegando cheia de fome e alegria. Raparigas entrando quase a correr, aos gritinhos, para caírem nos braços umas das outras.

    E, finalmente, a morena. Grandalhona, escultural, quase assustadora. E aquela frase repetida por todos e cada um dos convivas já sentados à mesa, aguardando-a mais do que qualquer outra coisa: ?Mas tu estás preta!?, ?Ganda bronze!?, ?Uma semana e ficaste logo assim??, ?Anda cá ao papá, ó boa!?

    O ?Anda cá ao papá, ó boa!? acrescentei-o eu agora, que ninguém teve coragem de dizê-lo. Mas sei que todos o pensaram (que diabo, até eu o pensei, embora num momento de fraqueza) ? e todo resto da hora e meia que ainda tive de esperar pelo bife, assim como cada um dos cinco minutos que levei a devorar aquilo tudo e a pôr-me a andar dali para fora, foi daquela sorte: um desfile de ?bronzes? e de ?náites? e de ?duhs? e de ?iás? e de ?é assins? e de ?vai lá, vais? ? essa parafernália de recursos de que os abençoados dispõem para prolongar durante horas uma conversa a pretexto de um bronzeado excessivo, de um telemóvel meio avariado ou apenas do número de tipos que tombaram à passagem da grandalhona durante os 26 exactos segundos que ela levou a percorrer a distância entre o Opel Corsa estacionado sobre o passeio do outro lado da rua e aquela cadeira mesmo ao meio da mesa que os rapazes mais diligentes lhe haviam reservado, varrendo as restantes raparigas para as pontas.

    E eu fiquei a pensar em como é bom dar um salto ao Sul em Agosto, fazer duas reportagens a correr, encaixar 18 buraquinhos de golfe no meio delas e zarpar depressa para Lisboa. Porque, se há um mês em que efectivamente se está bem em Lisboa, é Agosto.

    Os quiosques estão fechados. A mercearia da Dona Ana também. E, no entanto, tudo o resto são vantagens: o trânsito é pouco, as betoneiras e os martelos e as rebarbadoras e os caterpillars estão parados ? e, sobretudo, os lisboetas estão todos de férias, algures entre uma fila de automóveis, uma praia sem casas de banho e um bar a tocar a Shakira, com o DJ aos berros: ?Everybody is in the house!?

    E, se vos parece que estou desactualizado, que este tipo de entretém e este tipo de linguagem e este tipo de atmosfera são datadíssimos, coisa dos anos noventa e mais nada, desenganem-se já. Eu também pensava que já não havia ?BêÉmes?, ?náites? e ?bronzes? (sobretudo ?bronzes?, essa pinderiquice suburbana que desde o princípio rescendeu a douradinhos de cebolada, consultórios sentimentais da revista Maria e filmes com o Richard Gere) ? e, no entanto, ali estavam eles todos, desfilando à minha frente, apesar do século XXI, apesar dos raios UVA, apesar dos assassinos em série.

    O Algarve em Agosto é um regresso ao Portugal do passado ? e lembrarmo-nos de que esse Portugal ainda existe, mesmo que só por uma noite, ajuda-nos a compreender uma série de coisas.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 7 de Agosto de 2010



  • A fórmula do ódio

    Às vezes guardamos as coisas também em função das datas em que elas ocorreram. Por exemplo: se eu me lembro tão bem de que um dia caiu na Terra Chã uma granizada tal que nem os automóveis conseguiam brincar às suas habituais corridinhas, foi porque nesse dia fiz dezassete anos ? e porque, para além de apanhar uma daquelas constipações que nunca mais passam, tirei então uma das poucas fotos que vim a resgatar à adolescência. Se eu me lembro tão bem que Carlos Queiroz foi um dia competente, é porque faço anos a 3 de Março ? e porque foi precisamente a 3 de Março de 1989, data do meu décimo quinto aniversário, que Abel desferiu aquele petardo com o pé esquerdo que me fez sentir campeão do mundo pela primeira e única vez na vida. E, se hoje me lembro tão bem de Carla, também será, de alguma forma, porque ela morreu igualmente a 3 de Março, mais concretamente no dia em que eu fazia dezasseis anos.

    Não éramos amigos. Ela era um pouco mais velha e incomparavelmente mais bonita ? e às mulheres bonitas do liceu de Angra, nunca percebi porquê, jamais sobreveio o entendimento sobre os muitos encantos do meu acne. Na verdade, Carla era namorada do meu professor de Educação Física, um malandrim bonito e criativo que hoje vive na Finlândia mas passa dois terços do tempo no Japão, a treinar patinadores olímpicos. Adiante: Carla morreu em cima da sua scooter, abalroada por um condutor temerário que se despistou no viaduto sobre Vale de Linhares. Não sei se o homem estava bêbedo ou não: sei que foi assim que quisemos todos vê-lo ? e que no dia seguinte, bem de manhã, a professora de português, uma mulher linda e inteligente que só muito anos depois, quando nos reencontrámos em papéis diferentes, eu percebi que não era tão linda nem tão inteligente quanto eu pensava, lá nos levou todos à sala de espera do tribunal, onde poderíamos ver ao vivo o assassino, que devia ser presente ao juiz.

    Mais sensato do que os vários professores que acorreram à comarca com os seus pequenos exércitos atrás, o magistrado nem chegou a deixar sair o homem dos calabouços. Lembro-me de que, de alguma forma, me senti aliviado com isso. Por outro lado, eu levava um murro preparado para dar naquele homem, assim que ele passasse no corredor. Todos o levávamos ? e, quando enfim voltámos para as aulas, restaurada a ordem na escola, passou ainda bastante tempo até que conseguíssemos vencer a revolta e a frustração de alguém que se fizera ao caminho com um murro para dar e, afinal, fora obrigado a voltar com ele no bolso. Pois hoje, quando vejo as altercações dos chamados populares em torno de assassinos acabados de capturar pela polícia (como o serial killer de Carqueja, sim, exactamente como fez o povo da Lourinhã com o serial killer de Carqueja), é desse dia que eu me lembro: do dia a seguir ao meu décimo sexto aniversário. O dia em que eu senti revolta e alívio ao mesmo tempo. Uma revolta que não tive nunca dificuldades em compreender e um alívio que só muitos anos mais tarde vim a digerir por completo.

    Porque nem tudo nos gestos daquelas pessoas, como nos gestos que nós próprios estávamos prontos a empreender nesse malfadado dia de Março de 1990, é raiva. Há ali raiva, sim. Mas boa parte daquilo é ainda alteridade: apesar de todos os nossos defeitos, vem a verificar-se que há, afinal, alguém pior do que nós ? e dar-lhe um belo murro público, no momento em que ele começa enfim a subir o calvário que há tanto merece, é a melhor forma de deixá-lo claro. No fim, tudo se resume de novo à pertença. Mais do que sentir raiva, nós precisamos de demonstrar que sentimos tanta raiva quanto o próximo homem de bem, que somos homens de bem também e que aos homens de bem não resta outra coisa senão aceitar-nos no seu seio e deixar-nos vestir com eles a camisola dos homens de bem. Numa palavra, ainda que composta? Auto-estima. Não me digam que é uma invenção new age, porque não é. Vivemos desesperados por ser o ?um dos nossos? de alguém ? e é isso que, dentro de nós, transforma a raiva em ódio. Na adolescência como até ao fim.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 31 de Julho de 2010



  • Uma vida estúpida

    São seis da tarde. O sol bate agora de viés, os automóveis enchem Lisboa de apitos ? e, no entanto, o meu dia vai a meio. Acordei de madrugada, para preparar um comentário. Escrevi uma crítica. Respondi a quinze e-mails. Passei duas horas em estúdio. Voltei para o escritório. Escrevi um feature. Reuni umas ideias para a crónica de sábado. Entretanto, são seis. Ainda não é hoje que começo o romance. Faltam-me quatro textos até que batam as 24 badaladas ? e falta-me, sobretudo, esse telefonema. Sei que se vai prolongar. Talvez não. Serei seco, objectivo. Mas sei que se vai prolongar.

    ? Estou, Pedro? É só para te dizer que já liguei ao António e está tudo confirmado. Não te preocupes, vale? Grande abr...

    ? Joel? Olááááá?

    ? Olá, Pedro. Olha: liguei ao António e está tudo certo, ok? Grande abr?

    ? Então? Estás bom? Estás a trabalhar ou estás na praia?

    ? A trabalhar, a trabalhar. E era só para dizer isso, vale?

    ? Ah, vocês, freelancers, é que a levam bem. Olha, eu estou aqui preso ao escritório, pá?

    ? Pois. Tem lá paciência. Vá: grande abr?

    ? Sempre telefonaste ao António?

    ? Sim, sim. Telefonei e está tudo certo. Não te inquietes? Grande abr?

    ? E está tudo certo?

    ? Tudo, Pedro. Tudinho. Avança com a coisa. Vá: grande abr?

    ? Mas o que é que o António disse?

    ? Disse que aparece, que leva o material e que já tem um editor fisgado. Melhor era impossível. Vá: depois diz-me como correu. Grande abr?

    ? Ah, então ele vai?

    ? Vai, vai. Fica descansado. Grande abr?

    ? Eh, pá, fico muito mais descansado. É que, se o António não fosse, eu?

    ? Pois, eu percebo. Mas fica descansado. Tudo certinho. Grande abr?

    ? ? ficava agarrado, estás a ver? Um tipo anda meses a trabalhar num projecto e depois fica pendurado.

    ? Nada disso. Ele é responsável. Tranquilo. Grande abr?

    ? Quer dizer, tu percebes a minha preocupação. Ontem ligo para o Jacinto, e diz ele: ?Pedro, nada feito. O António não alinha.? Estás a ver a aflição. De maneira que?

    ? Claro, claro. Mas na boa. Tudo certo. Vá: grande abr?

    ? ? pensei logo: ?O Joel é que me resolve isto.? De forma que liguei para ti. Espero que não te tenhas aborrecido muito.

    ? Não custou nada. Agora, vá: tenho de ir escrever uns text?

    ? Eh, pá, foste um porreiro. Não tenho como te agradecer.

    ? Não agradeças. Amanhã é ao contrário. Grande abr?

    ? Mas, então, ele disse mesmo que ia e que estava tudo certo??

    ? Tim-tim por tim-tim. E não falha. Não te preocupes.

    ? Uf. Grande alívio. É que?

    ? Claro, claro. Mas está resolvido. Vá: grande abr?

    ? ? se eu não ligo para ti, nunca mais. Ou eras tu, ou eu ficava na merda.

    ? Pois. Faz-se o que se pode. Mas fica descansado. Grande abr...

    ? E o gajo leva os leds ou só o som?

    ? Isso é melhor falares com ele. Tens o número. Liga-lhe, ok?

    ? Ah, está bem, está bem. Eh, pá, ó Joel, tu não te preocupes que eu ligo, hã? Já perdeste tempo suficiente.

    ? Nada, nada. Vá: grande abr?

    ? Ainda por cima tens uma vida tramada. Às vezes preocupo-me.

    ? Não, pá, estou como o aço. Vá: grande abr?

    ? Mas, então, ele disse que ia?

    ? Foi, Pedro. E não falha. Vá: fico a torcer por vós.

    ? Vá, amigo. Grande abraço. Vou ligar ao gajo para combinar os pormenores.

    ? Liga, liga. Grande abr?

    ? Fico muito mais tranquilo. Então, ele disse que ia, não é??

    E seguem-se mais 45 minutos de telefonema ? e a conversa só acaba porque, de repente, fico ?sem rede?. Ainda acham tontice um homem dizer que detesta (que odeia, que execra, que abomina com todas as forças) falar ao telefone?

     

    PS: quanto ao comovente caso ?Marta Rebelo e a Crónica de Joel Neto?, falta-me o espaço. Lá terei de deixar a donzela aos berros, desgadelhando-se sozinha.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 24 de Julho de 2010



  • Dispam-se à vontade, a ver se eu me importo

    Recebi há umas semanas um e-mail que dizia assim: ?Gostaria de saber se nao me sabe dizer o que posso fazer para pousar para alguma revista masculina, ou para fazer algo a nivel de representação. Obrigada.?

    Era, naturalmente, de uma rapariga, embora não me lembre do nome dela. Primeiro, ri-me como um louco. Depois condoí-me de pena. Depois, ri-me como um louco novamente.

    Condoí-me de pena porque uma rapariga que não sabe que as palavras ?não? e ?nível? levam acento não merece outra coisa senão comiseração. De tudo o resto ri-me.

    Imaginei-a de origens modestas, moça de província, talvez bela como mais nenhuma na sua freguesia ? e ri-me desse orgulho tonto que tem na sua beleza e na sedução que está convencida que ela seria capaz de produzir sobre todos os homens de Portugal, que não apenas o vizinho da frente, o Ti Chico da mercearia e os ajudantes de mecânica a quem foi levar no mês passado o VW Polo, na companhia do pai, para mudança de óleo, filtros e correia de distribuição.

    Imaginei-a acabadinha de sair da escola profissional, formada agora em secretariado, em hotelaria, em monitorização de tempos livres para idosos ? e ri-me desse gesto decidido que finalmente resolveu empreender, pondo a mão na anca, meneando o cabelo e dizendo de si para si: ?Afinal, o que é isto, Cátia? Mas tu vais andar a vida inteira a dançar o vira com os velhos do centro de dia, se és tão bonita e podias, por exemplo, estar nos Morangos com Açúcar??

    Imaginei-a recém-licenciada, com uma pilha de recortes dos cadernos de emprego em cima da mesa da sala, inquieta por ganhar independência, mortificada com o fardo que o seu ócio involuntário continua a representar para os pais, que tanto esforço fizeram já por dar-lhe um canudo ? e ri-me do seu desespero, da sua angústia, da sua ansiedade de boa menina que de repente está por tudo, inclusive por vestir umas cuecas de lycra, tapar as maminhas apenas com as pontas dos indicadores e ficar ali, impressa em papel couché, numa revista para cima da qual babarão o vizinho da frente, o Ti Chico da mercearia, os ajudantes de mecânica e todos os demais nojentos, babosos e rebarbados que há anos cobiçam a filha do seu pai e agora vão, finalmente, ter a oportunidade de roubar-lhe um pedacinho.

    Não me ri da sua ignorância sobre as diferenças e as semelhanças (sobretudo as semelhanças, cheias de potencial metafórico) entre os verbos ?posar? e ?pousar?. Trocar ?posar? por ?pousar?, em tal contexto, bem podia ter sido de propósito, uma ironia de fino recorte ? e eu queria rir-me daquela rapariga que, de repente, se pusera a copiar todos os endereços de e-mail que encontrara no jornal e começara a disparar pedidos de ajuda nos primeiros passos em direcção ao estrelato.

    E ri-me.

    Ri-me porque estou cansado, cínico e rezingão, destino que, aliás, me esteve sempre reservado. E ri-me porque estou farto deste mundo de Ritas Pereiras, Cláudias Vieiras, Cristianos Ronaldos e respectivos sucedâneos, grandes e pequenos, para quem a vida ainda pode bem ser uma brincadeira apenas, desde que se tenha sorte (sim, é ?sorte? a palavra que usam).

    Houve um tempo em que não me ri, confesso. Houve um tempo em que recebia um e-mail assim e me sentava ao computador a articular pedagogia, exercendo ainda o cuidado suplementar de disfarçá-la entre apartes e ressalvas que não queriam dizer outra coisa senão que tudo aquilo era normal, aqueles sonhos e aquele próprio e-mail, embora talvez devêssemos ambos parar agora para pensar um bocadinho, ali os dois, um de cada lado da web, chegado inevitavelmente à conclusão de que talvez não fosse bem assim, de que talvez fosse até interessante experimentar uma abordagem diferente do problema, quem sabe começando devagarinho, talvez até trabalhando.

    Mas estou cansado, cínico e rezingão. Acredito pouco na sorte, acredito menos ainda em miúdos que acreditam na sorte acima de qualquer outra coisa ? e, aliás, deplorando os paizinhos de miúdos que acreditam na sorte acima de qualquer outra coisa, deploro mais ainda os miúdos que não foram capazes de transcender a deplorável visão do mundo que os paizinhos lhes deram.

    Façam-se mas é à vida, malandros. Só isso: façam-se à vida.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 17 de Julho de 2010



  • Parece que acabou o crédito fácil e barato

    Em matérias de economia, já aqui o assumi, não chego sequer a ser um leigo: sou um ignorante mesmo. Perguntem-me com quem casou Scarlett Johansson que eu sei. Perguntem-me como é que se bate um punch com backspin que eu, mesmo não sabendo fazer, sei como se faz. Perguntem-me a quantos palmos do seguinte deve um pé de couve ser plantado que eu, não o sabendo de cor, o que tenho mais é a quem perguntar. Perguntem-me como é que se conjuga o verbo mais esquisito de que se lembrarem que eu, sabendo-o ou não, hei-de ter aí por casa alguma gramática que o explique.

    Economia, não, por favor. As vantagens da desvalorização da moeda em sede de controlo da inflação? Nem perguntando. Em que medida poderá ser a poupança das famílias a conter o avanço da crise? Nem lendo. Que facturas é preciso guardar para deduzir no IRS? Tenho de ir conferir com a Dona Júlia, aquele anjo que anualmente agarra pelos cornos o caos das minhas finanças pessoais e o ordena numa folhinha cor-de-rosa, com ar de declaração fiscal a sério ? e, mesmo assim, o mais natural é que me esqueça dos pormenores, acabando por responder-vos como me respondo a mim próprio: ?Olhem, guardem tudo, vão metendo num saco de plástico e em Março mandem para a Dona Júlia, ou lá como é que se chama o vosso anjo em particular.?

    Para dizer a verdade, o dinheiro não me interessa. Não me seduz. Não me comove. Tem como única utilidade obrigar-me a levantar-me de manhã, resistindo à vocação natural para a preguiça ? e, mesmo assim, para esta vida ser mesmo porreira, porreira, porreira, o ideal era ter o suficiente para não nunca mais precisar de pensar nele.

    De maneira que, quanto às origens desta crise, o mais que sei é o que sobre elas fui lendo por aí, incluindo as etapas da bolha tecnológica, da especulação imobiliária e das tropelias na banca. As consequências já me são mais acessíveis de perceber, metade por olhar em volta e metade por continuar a fazer parte daquele cada vez mais restrito grupo de portugueses que ainda acha mais importante comprar o jornal de manhã do que poupar um euro para gastar em telemóveis: o desemprego aumentou, a precaridade também ? e, se o FMI não acorre rapidamente a Espanha, então é que vai ser o bonito para este enclavezinho rectangular entre Madrid e o oceano plantado.

    Daquelas que deviam ser, apesar de tudo, as implicações solares desta crise, como o foram das outras todas, já eu sei de saber sabido. Sei que a arte, a cultura, o entretenimento e a evasão em geral deviam estar absolutamente pujantes ? revolucionariamente pujantes ?, como sempre estiveram em alturas destas. E sei que não estão.

    Sei que a cultura erudita, esteja bem ou mal, teima em manter-se circunscrita às suas torres de marfim, cada vez mais incapaz de dialogar com os anseios de todos os dias. Sei que a literatura, e salvo um ou outro risco assumido por este ou aquele autor (tantas vezes com prejuízo para si próprio), está, por estes dias, reduzida às noveletas chorosas passadas na Carolina do Sul, às cada vez mais estafadas historinhas de paixão ocorridas em cenário ?histórico? e, sobretudo, aos desamores entre humanos, vampiros, lobisomens e papa-formigas de duas cabeças.

    Sei que a música anda mais angustiada com a procura da próxima grande voz da soul, agora que Amy Winehouse passou de pele-e-osso a osso apenas, do que com qualquer outra coisa. Sei que o cinema é bonecada e pouco mais. Sei que a TV, se a grande revolução da temporada é a transferência de Fátima Lopes da SIC para a TVI, está determinada a ficar ainda mais igual ao que já era. E sei, quanto ao futebol, que nem sequer podemos despedir o Queiroz porque Madaíl decidiu pegar na nossa psique comum e arquivá-la por quatro anos.

    Tanto quanto me parece, é a pior crise de sempre ? uma crise que nem sequer a criatividade e a emoção têm procurado combater. E, não fosse termo-nos finalmente visto livres de João Moutinho, não havia mesmo uma só boa notícia no meio disto tudo.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Julho de 2010



  • Mas desde quando os futebolistas têm rabo?

    Até que, por volta dos 80 minutos, a realização sul-africana decidiu fazer uma digressão pelas bancadas. Os ingleses perdiam 4-1. Jorge Larrionda havia-lhes roubado um golo perfeito ? e, não contente com isso, o chamado Destino ainda  lhes fizera passar um comboio por cima. As agências de viagens londrinas esperavam apenas o apito final para accionarem o plano de repatriamento dos adeptos. E, porém, duas inglesas riam. Pintadas de branco e vermelho, aparentemente lindas por detrás das suas pinturas ? e, o que era o mais estranho de tudo, felizes. A sua selecção estava a ser humilhada em campo pela Alemanha. Bloemfontein, tão indiferente a golos não validados como ao próprio som das vuvuzelas, rendera-se à excelência do futebol inimigo. Mas as câmaras tinham-se-lhes apontado aos sorrisos, elas próprias haviam detectado os seus rostos pintalgados nos ecrãs gigantes do Free State Stadium ? e deliravam de alegria, abraçando-se, fazendo V?s para os amigos lá em casa, abraçando-se de novo, rindo.

    E eu tenho a impressão de que isso não é futebol. Tenho a impressão de que isso não é futebol, e mais: tenho a impressão de que, sendo isso hoje futebol, o futebol tem hoje incomparavelmente menos graça do que já teve. Tenho a impressão de que o futebol tem hoje incomparavelmente menos graça do que já teve, e mais: tenho mesmo a impressão de que foram as mulheres a estragar o futebol. As mulheres e, principalmente, aqueles que quiseram conquistá-las para ele. Aflita com a urgência de alargar o seu mercado, a dita indústria do futebol virou, afinal, muito mais indústria do que futebol. Resultado: um Campeonato do Mundo que não é bem um Campeonato do Mundo: é mais uma espécie de Mister Universo com jogadores da bola. E, se pensam que estou a falar apenas da eleição do melhor jogador em campo, esse incontornável prémio de fotogenia que Cristiano Ronaldo já tinha ganho três vezes antes mesmo de tocar na bola, desenganem-se. Estou a falar do próprio jogo. Da forma como se celebram os seus sucessos. Da maneira como se lamentam os seus fracassos. Do modo, em suma, como se vivem as suas pausas.

    Para muitos de nós, fanáticos pelo pontapé-na-bola, os primeiros sinais de interesse das mulheres no jogo foram um encanto. Fulminados com olhares de rancor sempre que reclamávamos a posse da televisão ou anunciávamos, já a medo, que no domingo à tarde não íamos poder ir ao Zoo porque jogava o Benfica, estávamos habituados a ver a nossa paixão recebida com desdém ? e, quando finalmente nos apercebemos de que também elas começavam a olhar para o ecrã, mesmo que de início com uma curiosidade quase sociológica, rapidamente lhes explicámos tudo o que sabíamos sobre aquilo, os pontapés-de-canto e os foras-de-jogo, a defesa em linha e o próprio quatro-três-três. Entretanto, passaram-se dez anos, talvez quinze (eu ia dizer vinte, mas não, vinte não foram de certeza). E, de repente, o futebol é agora só para elas. Não para elas, aliás (não haveria problema nenhum em que fosse para elas): para a forma lúbrica como a maior parte delas vê o jogo. As câmaras mostram-lhes tudo: os músculos, os olhares, os rabos. Os futebolistas correspondem-lhes com ardor: namoram os cameramen, levantam os olhos para o ecrã gigante do estádio de cada vez que falham um golo, tiram a camisola quando vão a sair do campo. E, entretanto, ninguém jogou à bola.

    Eu podia dizer que a culpa é de Beckham, a primeira grande pop star do futebol, mas já nem é. ?I would fuck the shit out of you? (?Papava-te todo?, numa tradução benevolente), diziam no outro dia centenas de raparigas inglesas no FaceBook de Ronaldo. E o desfecho que temos é o que aí está: salvo um ou outro joguinho mais inspirador, um dos piores campeonatos das últimas décadas, se não mesmo o pior. Entretanto, as duas inglesas continuarão rindo nos momentos em que deveriam estar a chorar. E nós, que durante tantos anos chorámos lágrimas deliciosas com algumas das mais belas derrotas do mundo, não temos outra solução senão rir também.

    CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 3 de Julho de 2010




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